Investimento em inteligência

DIANTE DE TANTAS incertezas, já é possível detectar um consenso sobre a evolução do mercado de tecnologia da informação (TI) a curto e médio prazo no Brasil: as vendas de softwares e serviços relacionados ao aumento de produtividade e melhoria do desempenho das empresas não devem ser reduzidas em função da crise financeira mundial e da retração econômica que afetam alguns países. Os investimentos não cessarão; ao contrário, continuarão apresentando taxas de crescimento expressivas, segundo estudo da consultoria IDC América Latina divulgado no final de novembro. Os clientes locais evoluem rapidamente em controle da informação, melhoria de processos e gestão, otimização de infra-estrutura e outsourcing (terceirização) – e por enquanto ninguém aposta em um recuo dessa tendência. O que se espera, na verdade, é que ela se aprofunde ainda mais, com novos esforços para redução de perdas e desperdícios e busca de mais. inteligência na operação e nos negócios para driblar as armadilhas de um mercado global menos consumidor. Hoje, boa parte dos investimentos em TI se tornou estratégica e está relacionada à competitividade do negócio. "Em média, conquistamos cerca de 200 clientes novos por mês e não sentimos nenhuma queda nas vendas atéagora", afirma Wilson de Godoy Soares, vice-presidente de gestão de desenvolvimento de softwares da Totvs, maior fornece-dor nacional de softwares de gestão integrada (ERPs), que cresceu 30% no último trimestre. Companhia de capital aberto, a Totvs tem resistido bem às oscilações do mercado de capitais e suas ações se valorizam de maneira sustentável. "No Brasil, as pequenas e médias empresas só agora estão criando maturidade para o uso de ferramentas de TI na gestão e há ainda um largo espaço a ser explorado." Da mesma forma que os ERPs, outras ferramentas e soluções que contribuem para a melhoria da performance de empresas de todos os portes terão suas vencias pouco ameaçadas. Investimentos que estejam relacionados ao aumento da eficiência e otimização de recursos estão hoje no topo das prioridades dos clientes. A escassez de crédito, principal fator de limitação do crescimento dos negócios, pode até cancelar alguns contratos de TI, mas muitos investimentos programados, na onda da racionalidade e do ganho de produtividade, poderão se converter em gastos de custeio.

A BMC Software, fornecedora de soluções para aplicações críticas de negócios, não vislumbra grande perturbações nas suas vendas. "Não percebemos adiamento de investimentos, tivemos até alguma antecipação", revela Celso Chapinotte, diretor geral da BMC no Brasil. A empresa vem crescendo a taxas superiores a 40% no atual exercício e sua previsão para o próximo ano fiscal, que começa em março, é de expansão de 25%. Fazer mais com os recursos disponíveis, ou até com menos recursos, é o mantra da gestão nestes novos tempos. "Com a crise, as empresas vão tratar de aprimorar seus mecanismos de gestão de infra-estrutura, para melhorar sua disponibilidade e produtividade", diz Chapinotte, acrescentando que a BMC oferece ferramentas que possibilitam a redução de despesas de gerenciamento de infra-estrutura por meio da automação dos processos. A pesquisa da IDC revela que o mercado latino-americano será um dos menos afetados pela retração econômica global e que o Brasil, maior mercado da região, manterá taxas de crescimento ainda bem próximas de dois dígitos, como se projetava antes da crise que atinge em cheio os Estados Unidos e vários países da União Européia. Se o antigo cenário, anterior a outubro, permitia projeções de crescimento de 13,7% das vendas de sistemas, serviços e equipamentos de TI em 2009, depois do baque financeiro o percentual baixou para 7,8%. As perspectivas de expansão do mercado brasileiro também encolheram de 14,4% para 9,1% — redução menor do que a da média da região. Os investimentos não cairão por igual em todos os segmentos. En-quanto os destinados a hardwares, PCs e servidores, por exemplo, ficarão abaixo da metade do previsto, que era de 15,3% e ficou em 6,6%, nos softwares e serviços a queda será muito mais suave: de 12,1% para 10% no primeiro caso, e de 10,7% para 8,6% no segundo. "Cada país da região tem sua própria dinâmica e o México, por exemplo, cuja economia é muito mais ligada à dos Estados Unidos, tende a sofrer mais", afirma Ricardo Villate, vice-presidente de pesquisa e consultoria da IDC. A taxa de crescimento do mercado de TI mexicano, antes estimada em 11,7%, vai ficar em 5,2%.

Quando questionadas pela .IDC sobre os investimentos e gastos de custeio em serviços de TI que pretendem manter, as empresas da região mostram que as prioridades são integração de sistemas, gerenciamento de operações e outsourcing, sempre pensando em ganhos de escala e eficiência. No que se refere aos softwares, os investimentos em produtividade e inteligência de negócios serão os menos afetados, seguidos pelos projetos de Customer Relationship Management (CRM) e de ERPs. Já nos hardwares, é esperada uma queda importante nas vendas de PCs e servidores, mas para equipamentos de rede e de armazenamento (storage) as projeções são mais otimistas. "Há um movimento de consolidação da infra-estrutura na América Latina que não vai ser interrompido por causa da crise", diz Villate. A Juniper Networks, fornecedora de soluções de rede, exemplifica bem esse ciclo positivo de investimentos, orientado para melhoria de gestão e ganho de eficiência produtiva e comercial. A empresa está envolvida, neste momento, em 56 novas negociações no Brasil e, em todos os casos, os clientes buscam soluções que envolvem otimização do desempenho de infra-estrutura e planejamento de capacidade.

A crise financeira mundial não adiou nenhuma negociação iniciada pela Juniper. Todas avançam no ritmo normal e 20% delas se desenvolvem de maneira acelerada. "Uma das minhas maiores certezas é que a internet não vai parar de crescer", afirma Claus Troppmair, diretor para o mercado corporativo da Juniper. "E outra é que as empresas vão continuar demandando mais capacidade de rede e serviços de integração de cadeia de suprimentos." O que Troppmair vê no seu negócio é mais competição e abertura de oportunidades em nichos antes inexplorados. A empresa, que deve crescer entre 20% e 25% no Brasil neste ano e faturar cerca de R$ 160 milhões, praticamente só atendia operadoras de serviços de telefonia. Há quatro anos, ela passou a oferecer soluções de rede e de segurança, assim como equipamentos de pequeno e médio portes, para o mercado corporativo – nicho que já garante mais de um quarto de suas vendas, e apresenta o maior potencial de expansão para a Juniper.

Sustentação

Os investimentos em TI estão, mais do que nunca, associados à sustentação e aumento da competitividade das empresas. Em certos casos, esses investimentos são a melhor forma de minimizar os efeitos da crise, com ganhos de organização e inteligência em um ambiente de incertezas. O desenvolvimento da governança corporativa também intensifica o uso da TI e demanda a integração de sistemas, para facilitar o bom fluxo e a transparência das informações. Soluções terceirizadas estão na ordem do dia porque contribuem para a redução de custo e para a eficiência da operação. A Alog Data Center, líder em hosting gerenciado no mercado nacional, com uma base de 900 clientes, não só descarta queda de negócios por causa da crise, como prevê um aumento de 30% na procura pelos seus serviços. O raciocínio do diretor comercial da empresa, Eduardo Carvalho, é justamente o da competitividade e das vantagens da terceirização. "O mercado corporativo em geral buscará redução de despesas e novas alternativas como a contratação de empresas especializadas em fornecimento de hardware e serviços agregados", aposta. "Temos certeza de que esta demanda aumentará consideravelmente, pois podemos fornecer servidores, infra-estrutura redundante e ainda diminuir custos de manutenção e de energia elétrica para o cliente." "A principal preocupação da Cimcorp tem sido ajudar o gestor de TI a ter mais controle sobre suas operações", afirma José Roberto Rodrigues, diretor de canais e alianças da Cimcorp, fornecedora de serviços de integração de sistemas, outsourcing e BPO (Business Proess Optimization), também favorecida pelo vigor dos negócios de terceirização. "Em vez de pensar em investimento, é mais vantajoso tratar a TI como um grande serviço que tem um custo mensal." Muitas empresas decidem reduzir ou eliminar os investimentos na aquisição de equipamentos e aumentar suas despesas com o custeio dos serviços que representam dois terços do custo total de propriedade de um servidor. Transfere-se para terceiros a hospedagem dos sistemas e a gestão da infra-estrutura; paga-se pelo desenvolvimento e implantação de uma solução completa de negócios e transfere-se a TI para especialistas.

Offshore

O outsourcing não dá sinais de arrefecimento, nem no mercado interno e nem nas principais rotas offihore, o que significa que os fornecedores brasileiros de serviços passam a ter novas oportunidades no exterior. Um fator que passa a favorecer as empresas brasileiras prestadoras de serviços de TI é o câmbio. Com o real desvalorizado, o custo da mão-de-obra no País fica mais atraente e capaz de rivalizar com algumas ofertas indianas. Segundo Antonio Gil, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), os serviços de terceirização continuarão crescendo em ritmo acelerado, a taxas superiores a 40%, de acordo com estudo recente divulgado pelo instituto Gartner na China. "Os serviços de outsourcing of hore movimentarão cerca de US$ 70 bilhões neste ano e o Brasil, oitavo mercado de TI do mundo, ainda tem uma participação pequena no negócio", diz. As exportações brasileiras de serviços e softwares, segundo a Brasscom, vão atingir US$ 1,3 bilhão em 2008 e projetam alcançar US$ 5 bilhões em 2011. O que se espera, além do aumento das cifras, é uma maior presença de empresas nacionais prestando serviços off ho-re. Atualmente, quem domina essas exportações são as subsidiárias de multinacionais no Brasil, como a IBM, mas os fornecedores locais podem conquistar mais mercado. Para Gil, a grande competência em TI, somada à vantagem competitiva do câmbio, vai atrair mais contratos de outsourcing para as empresas brasileiras. Sobre o futuro do mercado em geral, ele diz que a Brasscom está moderadamente otimista. "Em momentos de crise a tendência das empresas é controlar e reduzir custos e despesas e a TI é a ferramenta mais adequada para se conseguir isso", afirma. "Apesar do baque econômico, os investimentos devem continuar.

Fonte: Revista Razão Contábil


 

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